É claro que o pantomineiro-mor já fazia das suas antes de ser (alegado) primeiro-ministro. É óbvio que a competência que demonstrou antes de se alçar a São Bento ajuda a traçar um retrato mais rigoroso da personagem. Contudo, se nos cingirmos a olhar isoladamente para cada uma das peripécias em que se envolveu, podemos ver muitas árvores e não ver a floresta.
Vem isto a propósito de uma peça na edição de sexta-feira do Público ¹. Pode-se discutir a incompetência do estarola. Pode-se discutir se foi remunerado pelos serviços que prestou à ONG fantasma (matéria sobre a qual o alegado primeiro-ministro se esquivou delicadamente a esclarecer). Pode-se discutir em que termos se processou a sua colaboração com a ONG fantasma, sendo deputado em regime de exclusividade. Pode-se discutir tudo isto e muito mais.
Em todo o caso, cada uma destas discussões só faz sentido se, a priori, se discutir a questão nuclear: pode um tipo, cuja única actividade durante anos foi arranjar artimanhas para sacar fundos europeus, ser primeiro-ministro?
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¹ Infere-se da peça do Público que a passagem de Passos Coelho pela ONG fantasma foi um rotundo fracasso. Tendo a ONG fantasma «em carteira cinco projectos com um valor superior a 12 milhões de euros», conclui o Público:
««As acções programadas pelo CPPC [Centro Português para a Cooperação] saldaram-se por quase nada. Das cinco para as quais procurava financiamento no início de 1998, apenas uma, para formar costureiras em Oeiras, foi por diante».
Comparando com o que a Tecnoforma fazia antes, o investimento em Passos Coelho apresentou, de facto, um retorno modesto: «A Tecnoforma obteve, entre 1993 e 1996, antes de criar o CPPC, subsídios no valor de 62.980 contos (314 mil euros), quase três vezes mais do que os 137.500 angariados pelo CPPC para Oeiras».
É certo que, em sua defesa, Passos Coelho poderá argumentar que, depois, foi muito mais competente. Quando ingressou na Tecnoforma , obteve milhões de euros a dar formação a funcionários municipais para aeródromos desertos. Mas poderá contra-argumentar-se que aí a estrela que brilhou não foi Passos Coelho, mas um tal Miguel Relvas, que, enquanto governante, fazia a distribuição dos fundos europeus.
Fonte: http://ift.tt/1A3b3Mz
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