A direita sabe que o ano de bónus oferecido por Cavaco Silva não servirá para ela ser içada do buraco que tem estado a escavar ao longo destes últimos três anos. Mas poderá ser útil para se entrincheirar, de forma duradoura, em áreas-chave do aparelho do Estado. Parece ser esta a estratégia que anima a direita até às eleições legislativas.
A indicação de Carlos Moedas para comissário europeu é o sinal de que chegou o momento de tomar de assalto os lugares a partir dos quais a direita possa condicionar a acção do próximo governo e a política europeia.
O Banco de Portugal está no topo das prioridades. Esta semana, no início dos trabalhos da comissão parlamentar de inquérito ao BES, o PSD e o CDS-PP não poderiam ter feito mais para pôr em xeque Carlos Costa — o governador que, por ironia do destino, fez de implacável guarda-costas da política do Governo de «ir além da troika». O tiro ao boneco a que se assistiu presta-se, a curto prazo, para imputar ao governador a despesa pela inacção perante o desmoronamento do BES, alijando as responsabilidades do Governo. A médio prazo, será útil para tornar inviável a renovação do mandato do governador em meados do próximo ano, abrindo caminho à nomeação de alguém saído das entranhas do passismo/gasparismo.
Metido numa camisa-de-onze-varas, o actual governador convenceu-se de que poderia aplacar as feras se recebesse no Banco de Portugal como príncipes todos os que lhe batessem à porta com um carimbo na testa a rotulá-los de tirocinados no Governo de Passos Coelho . Não saciadas as feras, Carlos Costa viu-se forçado a fazer o impensável: torpedear o concurso para o provimento do cargo de director do Departamento de Estudos Económicos quando descobriu que o candidato escolhido não era afecto ao gasparismo. E, não menos relevante, o governador entregou a reestruturação deste departamento — temível instrumento de poder, porque tem ao seu dispor os meios para influenciar e condicionar a política económica e financeira do país — a… Vítor Gaspar. Eles andem por aí.
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